Lembro do tempo de menino, dos dias no "mercado de farinha" vendo pessoas e figuras, caricaturas de um nordeste sofrido e de um sertão esperançoso, passando e vivendo. Todos os sábados eram nostálgicos, vivia nos sábados os lendários "dias de Feira" de Riachão do Jacuípe.
A saída de casa era cedo, se arrumava todo, tinha um longo caminho a percorrer de casa em casa chamando os amigos, garotos de nove, dez, onze anos que com suas camisetas regatas, bermudas e trocados iam à "rua" na feira livre gastar suas riquezas de meninos em doces, picolés e bugigangas dos camelôs. Bons dias!
Nostálgico é lembrar da hora de ir para a "beira" de meus avós. Vô sempre "pileriando" com um ou outro, rindo, feliz e vó sempre sentada com seu olhar de sabedoria, carinho e amor. Sinto falta da inocência, da tranquilidade daqueles dias e de como pouco já nos tornava reis.
Acabei com o tempo criando a rotina de encerrar meu dia frente a um "caixão de farinha", tentando vender algo ou simplesmente atrapalhando meus avós, mas aquilo era completo, eu, ali, sentado me sentido "o homem", que vez ou outra tentava imitar o avô e pegou um pouco dos hábitos... Orgulho-me de ter "puxado" a meus avós, afinal de contas bons costumes e sensatez estão quase que extintos.
Da farinha, que aprendi a apreciar e ser Expert em saber sua qualidade, eu me tornei homem, vez ou outra, entre experimentar uma farinha ou outra eu experimentei exemplos de pessoas a minha volta.
Hoje me deparo com um pesadelo, um pedaço de mim fechado, jogado para fora de contexto, ainda não compreendo, até entendo, mas não posso compreender como já se fazem séculos(afinal se passa tão lento o tempo no interior que horas são anos e dias séculos) que o meu, o nosso "mercado de farinha" ainda encontra-se órfão, mesmo com seus "pais e mães" reintegrados, fica a ferida de não poder mais ter o ambiente nostálgico com meus, hoje mais velhos, avós. Não culpo governos por esse fato, mas me indigno por outros fatos, o fato de não lembrar o índice de mortalidade por farinha de mandioca do mercado de cereais de minha cidade, ou quantas galinhas foram chacinadas por intoxicação do milho vendido ali, procuro os fatos e não me recordo, apenas vem em mente as faces felizes dos mesmos nordestinos, sertanejos que não mais vivem, mas sobrevivem.
Sobrevivem dentro de uma (pseudo)democracia sem poderes e sem voz. Presumo que o governo deve zelar pelo bem está do povo, mas zelar tem tido sinônimos que não encontro no dicionario e o POVO só aparece e é lembrado no contexto desse livro de linhas tortas chamados "Brasil" com seu enredo ditado por um gaga constituição de ordens e poderes em dias de colocar os "atores" dos papeis de governantes e etc e tal... Fico tão "gago", com vontade de gritar "Povo, acorda e vamos a luta", mas paro no "Po..." e reflito que realmente, no fim, assim como a terra de onde vem a mandioca que faz a farinha, hoje tudo é "pó"... Apenas aguardo a chuva chegar para do pó iniciar o ciclo de pó-barro-panela-fogo-comida-força-educação-democracia: Viver.